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O mundo rural português está a despovoar-se e, com ele, vai paulatinamente morrendo uma cultura tradicional e uma relação particular com a paisagem e seus usos. À semelhança de outros países europeus, assiste-se a um processo de pós-ruralização, com implicações em diversos domínios: económico, psicológico, social, cultural.
Estas transformações formam uma malha complexa e sobreposta de realidades. Não existe um antes e um depois. As formas ancestrais de viver o rural (ainda) coexistem com novos usos da paisagem, com novas actividades e prioridades, muitas delas ligadas a uma dimensão ociosa. Perante este cenário, existe hoje um imperativo de defesa e documentação de realidades paisagísticas rurais, para além da perspectiva ambiental em sentido estrito. A paisagem enquanto sobreposição de elementos naturais de fauna, flora e geologia, mas que inclui também elementos de intervenção humana, sejam arquitectónicos, agrícolas, saberes, utensílios, etc. Uma realidade que abrange todas as dimensões da paisagem é a acústica. Quais os sons que a nossa paisagem rural incorpora? Quanto deles já desaparecerem irremediavelmente? Estamos habituados a olhar o mundo que nos rodeia, mas quanto tempo nos dedicamos a escutar a “música” da paisagem? O que podemos aprender acerca das comunidades rurais através da dimensão sonora?
Hoje em dia existe uma consciencialização crescente para a necessidade de defender, estudar e documentar o património sonoro, de tal forma que existem estudos de ecologia sonora e algumas áreas geográficas (como a região autónoma da Galiza) incluem a dimensão sonora no âmbito do seu património imaterial autóctone. É com este contexto presente que surge o projecto “Aldeias Sonoras”. “Aldeias Sonoras” é um projecto educativo do Centro de Residências Artísticas de Nodar e que consiste na gravação, edição e mapeamento do património acústico de aldeias rurais em paralelo com o seu levantamento geográfico, histórico e sócio-cultural. O primeiro módulo do projecto arrancou em Fevereiro último em colaboração com a Escola Secundária de S. Pedro do Sul, sendo coordenado pelo Prof. Paulo Paiva, contando com a colaboração dos professores Isabel Prates, Gabriela Silva, Lina Martins, Paulo Quintela e Bruno Correia. “Aldeias Sonoras” é um projecto que encoraja estudantes de zonas rurais a “abrirem o ouvido” para o mundo acústico que os rodeia, envolvendo-os num processo analítico e colaborativo de captação, edição e publicação na Internet de ambientes sonoros específicos de cada aldeia ou paisagem rural.
O projecto pretende evidenciar a riqueza sonora do mundo rural português e a necessidade de o registar, envolvendo jovens nessa descoberta, promovendo em paralelo o sentido de identidade, de diversidade e de orgulho em viver no campo. O elemento mais visível do projecto constitui o blog www.aldeias-sonoras.org onde serão publicados de forma colaborativa todos os sons e informações sobre as diversas aldeias visitadas pelos jovens no âmbito do projecto. É possível aceder aos vários sons através da consulta de um mapa “Google”, o qual identifica os locais geográficos onde os mesmos foram captados. O Centro de Residências Artísticas de Nodar organiza e produz o desenvolvimento de projectos artísticos contemporâneos de artistas de renome mundial, seguidos de apresentações públicas na região. O Centro de Residências Artísticas de Nodar colocou-se desde o início das suas actividades na vanguarda da reflexão e prática internacional sobre paisagens sonoras, tendo já passado por Nodar cerca de duas dezenas dos mais conceituados artistas sonoros da actualidade. Luís Costa
Website do projecto: http://www.aldeias-sonoras.org
Os sons do silêncio No dia 7 de Março de 2009, um grupo muito heterogéneo juntou-se no Largo das Terças, no Candal. Era formado por alunos e professores da escola Secundária de S. Pedro do Sul, e dois técnicos do Projecto “Aldeias Sonoras”[1]: Luís Costa e Antonio Mainenti. O objectivo era recolher sons para o projecto. Os alunos e professores já tinham recebido alguma formação para a tarefa e os dois responsáveis coordenavam as operações. Saturno, o terrível deus do tempo, deve ter acordado bem disposto, ou então simpatizou com o grupo, porque a manhã estava magnífica, a temperatura amena, o sol radioso e a paisagem deslumbrante, prometendo um memorável. Depois de uma breve conversa ficou decidido que todo o grupo circularia durante algum tempo pela aldeia, para seleccionar os pontos de gravação. Mas logo no ponto de partida os sons da aldeia já chamavam por nós. Por todo o lado o cantarolar das águas, a várias vozes, como um coro afinado para descontrair todos os sentidos, por outro o grito da presença humana no rugido de uma máquina de cortar erva. Encontrámos a imagem deste ruído junto à estrada principal, num campo espantosamente verde, que uma mulher aparava. Os professores Paulos aprisionavam imagens, umas mais estáticas, outras mais dinâmicas, tal como os sons que éramos desafiados a identificar. Pela aldeia todos davam os bons-dias e um rafeiro simpático decidiu acompanhar-nos como se fosse o mestre-de-cerimónias. Depois de atravessarmos toda a aldeia em conjunto, o grupo fez a primeira separação estratégica: enquanto uns ficavam por ali, à saída da aldeia em direcção ao cruzeiro, rodeados de galinhas, pombas e pássaros, os outros voltariam ao centro da aldeia para gravar outro contexto, com vozes autóctones, ruídos das rotinas caseiras, um cão e chocalhos suaves dentro de um curral, por baixo de uma coelheira. Quando o grupo se voltou a reunir voltámos ao ponto de encontro para gravar o concerto das vozes de água: duas fontes, um tanque de nascente e um ribeiro, que cantavam ao desfio com o vento da montanha. Os alunos e os professores, entusiasmados na mesma descoberta, iam-se revezando na utilização dos materiais de gravação, em conversa animada, longe dos formalismos da sala de aula. Nessa altura chegou um tractor e o homem que o conduzia parou por ali, em simpática cavaqueira com os visitantes. É isto que eu acho excepcional nestas aldeias: a natureza e as pessoas recebem-nos de forma acolhedora, como amigos que enfim voltam ao lugar onde pertencem nos afectos de que ficou. As conversas soavam numa amálgama colorida, de pronúncias de diferentes locais do português e de italiano. O homem do tractor foi certamente emigrante num país francófono, porque ao ver máquinas fotográficas e de filmar queria saber de peças para a sua, que era antiga e também tinha uma “muette”[2]. Saímos do Candal em direcção à Póvoa das Leiras. A paisagem é grandiosa, a limitar o horizonte os montes altíssimos pareciam uma muralha que nos protegia do resto do mundo. À saída da povoação o grupo parou para gravar a aproximação de algumas vacas que desciam o caminho íngreme, de volta ao aconchego da aldeia e o local junto aos silos de água. Pelo caminho a imagem surpreendente de uma corda de roupa colorida, entre o verde fértil do chão e o azul límpido do céu, como uma brisa de frescura e alegria. Pena que não fosse possível gravar o que aquela imagem nos fazia sentir… Na Póvoa das Leiras encontrámos um pequeno café, onde aproveitámos para petiscar e retemperar forças. Depois embrenhámo-nos nas ruelas de calçada irregular, onde o tempo parece ter parado. As casas são de pedra, os telhados são de lousa, uma mulher passa vergada, sob um enorme molho de feno seco. Por todo o lado o ruído das águas e a altivez dos canastros. Enveredámos pelo caminho que nos levaria à Coelheira e o grupo espraiou-se na subida íngreme. Os montes pareciam mantas de retalhos, feita de tons de verde e terra, em socalcos soalheiros. Pelo caminho parámos para gravar com o hidrofone o fantástico som das águas galopantes. Com as pernas a reclamarem da subida entrámos na Coelheira. Aí quisemos captar a sinfonia canina que denunciava a nossa chegada, mas acabámos por apenas conseguir gravar o solista persistente, que tentava intimidar os estranhos. Na ponta oposta da aldeia, enquanto parte do grupo se embrenhava num terreno próximo para gravar as vozes das cabras reparámos que já cá estão as andorinhas. Voltámos ao largo, onde nos aguardavam os transportes. Renitentemente encetámos as despedidas, depois entrámos no autocarro que nos traria de volta à escola, cansados mas bem dispostos com o passeio revigorante. Alguém comentou que estas aldeias são lindíssimas, que é preciso preservar esta riqueza cultural. Alguém respondeu que o lugar é lindo para passear, mas não seria capaz de ali viver por ser demasiado isolado. Os dois comentários mostram os pontos de vista de diferentes fases da vida, o primeiro da idade madura, o segundo da juventude, ávida de agitação e aventura. O comentário mais expressivo veio de um dos mais novos, que confidenciava nunca ter imaginado que o silêncio da natureza fosse feito de tantos sons. Finalmente em casa, porque somos o que vivemos, as imagens e os sons da montanha saíram transfigurados em forma de poema.
É por isso que pergunto
O homem que diariamente Anda de margem para margem, Quando olha a barca não vê A serenidade do rio, A poesia ondulante No bucólico da paisagem, Mas apenas o transporte Para passar para o outro lado. A mulher que inventa a vida Na dureza da montanha, Quando levanta os olhos não vê A pureza que respira, O céu mais azul do mundo, A beleza extasiante da paisagem, Mas apenas o íngreme cansaço Do caminho que já fez. É por isso que pergunto: Depois de uma vida juntos Será que ainda me vês?
Maria Isabel Prates
[1] ““Aldeias Sonoras” é um projecto educativo coordenado pelo Centro de Residências Artísticas de Nodar e que consiste na gravação, edição e mapeamento do património acústico de aldeias rurais em paralelo com o seu levantamento geográfico, histórico e sócio-cultural. O projecto envolverá escolas básicas e secundárias de zonas rurais de diversas regiões de Portugal, começando uma fase-piloto no ano lectivo 2008-2009 na Escola Secundária de S. Pedro do Sul, pela sua proximidade ao Centro de Residências Artísticas de Nodar e pelo conhecimento profundo que os autores do projecto têm da sua diversidade paisagística e humana. “Aldeias Sonoras” é um projecto que encoraja estudantes de zonas rurais a “abrirem o ouvido” para o mundo acústico que os rodeia, envolvendo-os num processo analítico e colaborativo de captação, edição e publicação na internet de ambientes sonoros específicos de cada aldeia ou paisagem rural. O projecto pretende evidenciar a riqueza sonora do mundo rural português e a necessidade de o registar, envolvendo jovens nessa descoberta, promovendo em paralelo o sentido de identidade, de diversidade e de orgulho em viver no campo.” In http://www.binauralmedia.org/news/art-projects/aldeias-sonoras/langswitch_lang/pt
[2] Palavra francesa, que significa muda, designando a câmara de filmar que captava imagem, sem som.
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